A Bíblia Pode Ser Aceita de Maneira Literal?

de Lenny Flank
©1995

A totalidade dos princípios do fundamentalismo e criacionismo científico, como os próprios criacionistas reconhecem, é a crença de que a descrição da criação no Gênesis é literalmente verdadeira, e é uma descrição histórica e correta do que aconteceu. E, como também temos visto, este princípio é parte de uma fé maior de que toda a Bíblia é literalmente verdadeira em tudo o que diz, completamente livre de erros ou contradições.

Os fundamentalistas devem começar primeiro definindo a respeito de qual Bíblia estão falando. Em inglês, por exemplo, além da popular e conhecida versão do Rei James, temos também a Bíblia Scofield, a Bíblia Anchor, a Bíblia Standard Revisada, e várias outras. Poderia ser mais fácil aceitar uma Bíblia literal se todas estas versões dissessem o mesmo, mas não dizem. A versão do Rei James, por exemplo, menciona "unicórnios" em várias partes da obra (*1): 

"Deus os tirou do Egito; Tinha a força de um unicórnio." (Números 23:22)
"God brought them out of Egypt; he hath as it were the strength of an unicorn."
(Numbers 23:22)
"Deus os retirou do Egito; E lhes deu o vigor do búfalo." (Números 23:22)

"O unicórnio estará disposto a servir a ti, ou ser fiel a teu estábulo?"(Jó 39:9)
"Will the unicorn be willing to serve thee, or abide by thy crib?" (Job 39:9)
"Quererá servir-te o boi selvagem, ou quererá passar a noite em teu estábulo?" (Jó 39:9)

"Sua glória é como o primogênito de seu touro; e seus chifres são como os chifres de unicórnios." (Deuteronômio 33:17)
"His glory is like the firstlings of his bullock; and his horns are like the horns of unicorns."
(Deuteronomy 33:17)
"Glória a este touro primogênito! São chifres de búfalo os seus chifres; (...)" (Deuteronômio 33:17)

"Ele também os fez saltar como um bezerro; Líbano e Sarion* como um jovem unicórnio" (Salmos 29:6)
"He maketh them also to skip like a calf; Lebanon and Sirion like a young unicorn." (Psalm 29:6)
"Faz saltar o Líbano como um novilho; E o Sarion(*2) como um búfalo novo." [Salmos 28 (Hebr.29):6] 

Os unicórnios, entretanto, não existem e jamais existiram. Os versos originais provavelmente se referiam ao auroque ou boi selvagem quando citaram "chifres" e "força", animal que agora está extinto mas que viveu no Oriente Médio na época em que o Antigo Testamento foi escrito. E, realmente, outras versões da Bíblia traduzem estes versos como "boi selvagem" ao invés de "unicórnios".

Talvez o exemplo mais famoso de má tradução é a asserção bíblica de que Cristo "nasceu de uma virgem". A palavra hebraica original aqui é almah, que simplesmente significa "mulher jovem". A palavra hebraica que se refere especificamente a virgem é betulah, mas esta palavra não é utilizada nesse trecho. Quando a Bíblia foi traduzida para o grego, a palavra hebraica almah foi traduzida para a grega parthenos, que significa "virgem". (Spong, 1991, pág. 16) Desse modo, a asserção bíblica original foi de que Cristo "nasceu de uma jovem mulher", e esta é realmente a maneira como foi traduzida em algumas versões da Bíblia.

Um verso que nunca é traduzido corretamente em qualquer versão da Bíblia é justamente o primeiro, Gênesis 1:1, "No princípio, Deus criou os céus e a terra." A palavra hebraica para "Deus" aqui é "elohim", que na verdade é o plural da palavra, e literalmente significa "deuses". Portanto, uma tradução mais precisa desta passagem seria "No princípio, os deuses criaram os céus e a terra." Este verso é somente uma das indicações de que a religião monoteísta introduzida pela Bíblia nem sempre foi monoteísta. Alguns outros versos bíblicos implicam que havia, ou costumava haver, mais de um deus. Gênesis 1:26 diz, "E Deus disse, Façamos o homem à nossa imagem, à nossa semelhança." Em Gênesis 3:22, Deus é retratado como dizendo, "Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal." Durante a descrição da Torre de Babel, Deus é descrito como dizendo, "Vamos, desçamos e aqui confundamos suas línguas." (Gênesis 11:7) ["Go to, let us go down, and here confound their language."] ["Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro."]

Também há indicações dentro da Bíblia que, tal como nas lendas gregas de Hércules, que era um semideus (ou herói) ou seja filho de um deus com uma mortal, os deuses hebreus algumas vezes também tinham filhos com humanos: "Os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram agradáveis, e tomaram como esposas todas que escolheram . . . e eles despojaram filhos para eles, os mesmos podiam tornar-se os homens que foram na Antigüidade, homens de renome". (Gênesis 6:2-4) ["The sons of God saw the daughters of men that they were fair, and they took them wives of all they chose . . . and they bare children to them, the same became mighty men which were of old, men of renown."] ["Os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas, escolheram esposas entre elas . . . quando os filhos de Deus se uniam às filhas dos homens e elas geravam filhos. Estes são heróis, tão afamados nos tempos antigos."]

Hoje, os historiadores bíblicos chegaram a conclusão de que o judaísmo foi em uma época uma religião politeísta, até que os sacerdotes do deus da tempestade, Yahweh [Jeová/Javé/Iavé], conquistassem poder político e religioso suficientes para declarar que seu deus não era somente o deus mais poderoso, mas era na verdade o único. (Veja também)

Os problemas de tradução da Bíblia se complicam pelo fato de que várias versões diferentes dos eventos bíblicos estão presentes nos textos, sendo que cada uma destas versões parecem ter vindo de uma fonte diferente. Há duas versões diferentes do relato da Criação, por exemplo, uma em Gênesis 1:1 - 2:3 e a outra em Gênesis 2:4-25. Há três versões distintas dos Dez Mandamentos, em Êxodo 20:2-17, Êxodo 34:1-27 e Deuteronômio 5:6-21. Estudiosos da Bíblia concluíram que o Pentateuco não foi escrito por uma única pessoa (e nenhum trecho dele foi escrito, como tradicionalmente sustentado, por Moisés). Ao invés, a evidência lingüística e arqueológica (incluindo os famosos Manuscritos do Mar Morto) indicam que os relatos da Bíblia existiram somente como tradição oral por centenas de anos antes de serem escritos, e que existem pelo menos quatro fontes distintas para o texto do Antigo Testamento, conhecidas como a fonte Jeovísta (J), a fonte Elohista (E), a fonte Sacerdotal (S) e a fonte Deuteronomista (D), com cada seção escrita em épocas diferentes. Todas estas fontes diferentes foram editadas e reunidas em sua forma final por uma ou várias pessoas desconhecidas chamadas de o Redator, que provavelmente realizou esta tarefa ao redor do ano 400 a.C. 

Acredita-se que a fonte J é a mais antiga, e que provavelmente viveu no século X a.C. durante a época em que Salomão era o Rei de Israel (960-920 a.C.). Ele provavelmente viveu na parte do reino conhecida como Judá, e em suas narrativas enfatiza a retidão e as conquistas do monarca israelense (que também veio de Judá). Acredita-se que J escreveu grandes porções do Gênesis e Êxodo. É a partir desta fonte (conhecida como "Jeovísta" pelo hábito de se referir a Deus pelo nome de "Jeová/Javé") que temos a segunda das duas narrativas da Criação no Gênesis. Ainda que o segundo capítulo do Gênesis apareça depois na Bíblia, foi aparentemente escrito antes que o primeiro capítulo. A versão Jeovísta dos Dez Mandamentos, por exemplo (Êxodos 34), não faz nenhuma menção a Jeová descansando no sétimo dia e abençoando-o como o Sabbath -- aparentemente porque a cronologia de sete dias dada no primeiro capítulo do Gênesis não havia sido escrita ainda.

A fonte Elohista (assim chamada pelo hábito de se referir a Deus como "Elohim", ou "O Senhor", de acordo com a lei religiosa então em vigor que proibia o uso do nome de Deus) viveu cerca de 100 anos após J. Acredita-se que ele viveu na parte norte do reino de Israel, e diferente de J foi pouco compassivo para com a monarquia israelense (como era grande parte do norte na época). Alguns estudiosos acreditam que E foi um sacerdote anti-monárquico perante ao altar do Santuário. A fonte E escreveu partes do Gênesis e Êxodo, mas aparentemente não escreveu sua versão da criação. Se ele a escreveu, ela não foi incluída na compilação final daquilo que conhecemos como Bíblia.

A fonte Deuteronomista, como o nome indica, escreveu boa parte do livro bíblico do Deuteronômio. Os materiais deuteronômicos apareceram pela primeira vez no ano de 621 a.C., quando uma cópia de seus escritos fora, conforme se noticiou, descoberta escondida durante os trabalhos de reparação do templo de Salomão. Ainda que tradicionalmente se atribua a Moisés a autoria deste trabalho, é mais provável que tenha sido preparado por um membro ou membros de um grupo de sacerdotes que então estavam agitando por reformas religiosas no reino, reformas que coincidentemente trariam aos sacerdotes um maior controle político sobre Israel. Logo após ter sido "encontrado", o livro foi entregue ao Rei Josias, que implementou imediatamente todas as reformas que o livro indicava. Os novos escritos foram então incorporados aos de J e E para formar a maior parte dos livros bíblicos do Deuteronômio, Josué, Samuel I e II, e Reis I e II.

A fonte Sacerdotal data da queda de Jerusalém por Nabucodonosor em 596 a.C. e do período do cativeiro hebreu na Babilônia (587-538 a.C.). No exílio da Babilônia, os sacerdotes hebreus realizaram um esforço colossal para manter a cultura e religião de seu povo vivas através de uma revisão completa das tradições sagradas. A fonte Sacerdotal (não se sabe se foi um homem ou um grupo de sacerdotes que trabalharam juntos) adicionou grandes seções à Bíblia que entre outras coisas delineou rituais detalhados e leis religiosas, todos planejados para manter as práticas religiosas dos hebreus intactas, e para prevenir que o povo fosse assimilado culturalmente pelos babilônios. É desta fonte que os complicados rituais religiosos do Levítico foram compilados, bem como a maior parte dos livros dos profetas. Os textos bíblicos que existiam foram também editados para enfatizar a importância do ritual religioso. A história de Noé, por exemplo, foi alterada. A fonte J tinha escrito: "E de cada ser vivente de cada carne, dois de cada tipo tomarás e colocarás na arca, para mantê-los vivos contigo, macho e fêmea serão. Das aves segundo seu tipo, e do gado segundo seu tipo, dois de cada tipo virão até ti para serem mantidos vivos." (Gênesis 6:19-20) ["And of every living thing of all flesh, two of every sort shalt thou bring into the ark, to keep them alive with thee; they shall be male and female. Of fowls after their kind, and of cattle after their kind, of every creeping thing of the earth after his kind, two of every sort shall come unto thee to keep them alive." (Genesis 6:19-20)] ["De tudo o que vive, de cada espécie de animais, farás entrar na arca dois, macho e fêmea, para que vivam contigo. De cada espécie de aves, e de cada espécie de quadrúpedes, e de cada espécie de animais que se arrastam sobre a terra, entrará um casal contigo, para que lhes possas conservar a vida." (Gênesis 6:19-20)] Para S, entretanto, era importante que Noé sustentasse todo o ritual de sacrifícios e oferendas exigidas pela lei religiosa, assim esta narrativa foi adicionada, "De cada besta pura tomarás sete, o macho e sua fêmea; e das bestas impuras duas, o macho e sua fêmea". (Gênesis 7:2)  ["Of every clean beast thou shalt take to thee by sevens, the male and his female; and of beasts that are not clean by two, the male and his female." (Genesis 7:2)] ["De todos os animais puros tomarás sete casais, machos e fêmeas, e de todos os animais impuros tomarás um casal macho e fêmea;" (Gênesis 7:2)]

É da fonte Sacerdotal que temos o primeiro capítulo do Gênesis, o qual, ainda que seja o primeiro da Bíblia, foi na realidade uma das últimas partes do Antigo Testamento a ser escrita. A versão Sacerdotal do relato da Criação, que vai do Gênesis 1:1 até Gênesis 2:3, apresenta uma ênfase totalmente diferente da versão J, encontrada de Gênesis 2:4 até 2:25. O J salta por sobre os detalhes, por assim dizer, e, sem qualquer cronologia explicita ou explicações, simplesmente declara que Deus criou os céus e a terra e colocou Adão ali, feito a sua imagem. A fonte Sacerdotal, entretanto, traz detalhes consideráveis sobre como e quando Deus criou o sol, a lua e as estrelas.

Havia uma forte razão teológica para isto, do ponto de vista dos sacerdotes. Enquanto os hebreus estavam sendo mantidos no cativeiro da Babilônia, os sacerdotes de Israel estavam (justificadamente) temerosos de que eles se afastassem de suas próprias tradições religiosas e adotassem as teologias babilônicas que os envolviam. A teologia babilônica, diferente da israelense, era politeísta, na qual o sol, a lua, e as estrelas não eram apenas objetos, mas eles próprios eram deuses, e eram adorados como deuses -- por isso o grande esforço que os sacerdotes tiveram para descrever a criação dos corpos celestes por Jeová. A mensagem teológica era clara -- o sol e a lua não eram deuses, e não deveriam ser adorados como tal, uma vez que eles mesmos foram criados pelo único deus, Jeová. Aqueles que tentam considerar esta descrição como uma verdade histórica literal estão cegos em relação a mensagem teológica que ela simboliza. Para os autores do Gênesis, não importava como Jeová criou o universo -- tudo o que importava era que ele fez, e que ele fez isso sozinho.

É claro que algum grau de contato intercultural era inevitável, e algumas partes do texto sacerdotal, de fato, trazem afinidades inequívocas com certos mitos e lendas babilônicos. As enormes idades dadas aos patriarcas bíblicos no livro do Gênesis, por exemplo, (se diz que alguns dos anciões bíblicos viveram várias centenas de anos) são refletidas nas tradições babilônicas e suméricas que igualavam a idade com a sabedoria, de modo que se atribuía postumamente uma grande idade aos líderes antigos de acordo com sua sabedoria e honra -- quanto mais poderosos e honrados fossem, mais antigos (e assim mais sábios) se dizia que eles fossem. A lista sumérica de reis, por exemplo, que descreve os feitos de vários líderes antigos, dá para alguns destes heróis vários milhares de anos de idade. Não se toma como literal o número de anos que haviam vivido, mas como uma medida de sua glória e honra.

A versão sacerdotal do mito da criação no capítulo um do Gênesis, além disso, traz uma série de afinidades com o épico babilônico Enuma Elish, um poema com cerca de 1000 versos que fora encontrado nas ruínas da biblioteca do rei Assurbanipal na cidade de Ninive. Este poema foi datado entre 2000 e 2600 a.C., muito antes de qualquer versão da lenda da criação do Gênesis ter sido escrita. O Enuma Elish nos conta como o deus Marduk criou o universo em várias etapas. Primeiro, emanou luz dos deuses babilônicos para iluminar seu trabalho. Então, Marduk criou o firmamento -- um duro e claro "telhado" que se sustenta por cima do céu. A seguir, Marduk criou a terra seca por debaixo do firmamento, e após isto criou as luzes dos céus. Finalmente, Marduk criou os humanos, e no último dia os deuses descansaram e celebraram. A ordem da narrativa no Gênesis traz sinais inequívocos da influência do Enuma Elish.

Paralelos também podem ser vistos entre o livro do Gênesis e a lenda épica babilônica do Gilgamesh, escrita por volta do ano 2000 a.C.. No Gilgamesh, encontramos a história do Utnapishtim, um homem que é informado pelo deus Ea de que a terra seria destruída pelo deus Enlil em um acesso de fúria, afogando todos em um grande dilúvio. Em resposta, Utnapishtim construiu um grande barco de madeira e embarcou com toda sua família, todos os artistas locais, seu ouro e prata, e um macho e uma fêmea de cada animal vivo. Enxurradas assolaram a terra por seis dias, e tudo foi inundado e afogado exceto Utnapishtim e seu barco. Após as águas baixarem, Utnapishtim enviou uma pomba, então uma andorinha, e por último um corvo para encontrar terra seca. Após a inundação, Utnapishtim e sua esposa são recompensados pelos deuses sendo eles mesmo transformados em deuses, e levados aos céus. As similaridades entre a história de Utnapishtim e o Dilúvio de Noé são inconfundíveis, e é muito provável que a maior parte do relato no Gênesis foi criado em torno da tradição babilônica.

Problemas similares de autoria também surgem no Novo Testamento. Ainda que a tradição popular sustente que os Evangelhos foram escritos pelos discípulos Mateus, Marcos, Lucas e João, na verdade nenhum dos quatro Evangelhos foi escrito por alguém que tenha realmente conhecido Cristo, ou que tenha visto quaisquer dos eventos que descreve como de primeira mão. Os mais antigo dos quatro evangelhos, Marcos, foi escrito por volta do ano 70 d.C., aproximadamente quarenta anos após a morte de Cristo, por uma pessoa que, segundo estudiosos da Bíblia, não parece ter recebido uma educação de alto nível e por isso provavelmente não era um sacerdote. A partir de pistas lingüísticas e históricas, parece que a obra foi escrita em Roma.

O evangelho de Mateus foi escrito por volta do ano 80 d.C., por um judeu que provavelmente era um advogado e que de qualquer forma fora bem educado. Ele pode ter sido um levita. Exatamente aonde foi escrito é uma questão de certa disputa, porém a cidade de Antioquia é a candidata favorita. Aparentemente, o autor de Mateus estava familiarizado com os relatos escritos conhecidos como Marcos, de modo que muitas das seções de Mateus são repetições quase que palavra por palavra do livro anterior.

O Evangelho Segundo Lucas foi escrito apenas alguns anos após o de Mateus. A maior parte dos estudiosos bíblicos concordam que o evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos foram ambos escritos pela mesma pessoa, e muitas pistas apontam que os textos foram escritos por um gentio (não judeu), e mais provavelmente por um médico grego. Como o autor de Mateus, o escritor de Lucas tivera acesso ao livro anterior de Marcos, e deixou seções inteiras aproximadamente intactas.

O Evangelho de João foi terminado por volta do ano 100 d.C. Diferente dos autores de Mateus e Lucas, o autor de João não parece ter tido qualquer contato com os textos anteriores. O texto original de João foi escrito em grego, e foi provavelmente o trabalho de um estudante de alguém que tinha ouvido as palavras de João, o discípulo. Assim, o livro de João é na melhor das hipóteses um relato de terceira mão, e, a exemplo dos outros evangelhos, a maior parte das palavras atribuídas a Cristo provavelmente nunca foram realmente ditas por ele. (*3)

Os fundamentalistas, é claro, rejeitam a idéia de uma Bíblia que foi juntada peça por peça anos após os eventos que descreve, por uma sucessão de pessoas sendo que cada uma a seu tempo, teve seus motivos para enfatizar as coisas a sua maneira, porém em cada caso tinha uma mensagem consistente para difundir. Em seu zelo para tomar cada palavra da Bíblia em sentido literal, os fundamentalistas esquecem completamente o rico simbolismo teológico que é encontrado por toda a Bíblia. Muitos dos incidentes descritos na Bíblia, se tomados como literalmente verdadeiros, retratam a figura de um Deus que chocaria muitas pessoas. Em Ezequiel 23, por exemplo, Deus é declarado como tendo filhos de duas prostitutas: (*4)

"A palavra do Senhor veio novamente a mim, dizendo: 'Filho do homem, havia duas mulheres, as filhas de uma mesma mãe. E se prostituíram no Egito, praticaram prostituição em sua juventude; lá seus seios foram pressionados, e os mamilos de sua virgindade maculados. E seus nomes eram Oolá a mais velha, e Ooliba sua irmã, e elas foram minhas, e me deram filhos e filhas.'" (Ezequiel 23:1-4)
"The word of the Lord came again unto me, saying: Son of man, there were two women, the daughters of one mother. And they committed whoredoms in Egypt; they committed whoredoms in their youth; there were their breasts pressed, and there they bruised the teats of their virginity. And the names of them were Aholah the elder, and Aholibah her sister; and they were mine, and they bare sons and daughters."
(Ezekiel 23:1-4)
"A palavra do Senhor foi me dirigida nestes termos:' Filhos do homem: era uma vez duas mulheres, filhas de uma mesma mãe. Elas se prostituíram no Egito e se desonraram ainda jovens. Lá foram apertados os seus peitos, lá foi apalpado o seu seio virginal. A mais velha chamava-se Oolá, e sua irmã Ooliba;  pertenceram a mim, e me deram filhos e filhas.'" (Ezequiel 23:1-4) 

Em Salmos 137:9, Deus aparentemente sugere que as crianças dos edomitas [ou idumeus] deveriam ser mortas: "Feliz será ele, que tomará e arremessará teus pequeninos contra as pedras." ["Happy shall he be, that taketh and dasheth thy little ones against the stones."] ["Feliz aquele que se apoderar de teus filhinhos, Para os esmagar contra o rochedo!" (Salmos 136 (Hebr.137):9] Quando as cidades madianitas foram tomadas por Moisés, Deus o ordenou que matasse todos os meninos e todas as mulheres que não eram virgens, e que entregasse as virgens para as tropas: "Agora portanto mate todo varão junto com os pequenos, e mate toda mulher que tenha conhecido um homem por deitar-se com ele. Mas todas meninas, que não tenham conhecido um homem por deitar-se com ele, mantenham-nas vivas para vós." (Números 31:17-18) ["Now therefore kill every male along the little ones, and kill every woman that hath known man by lying with him. But all the woman children, that have not known a man by lying with him, keep alive for yourselves." (Numbers 31:17-18)] ["Ide! Matai todos os filhos varões e todas as mulheres que tiverem tido comércio com um homem; mas deixai vivas todas as jovens que não o fizeram." (Números 3:17-18)] Quando o Faraó se recusou a deixar os hebreus irem embora, Deus respondeu matando todo primogênito do Egito, mesmo aqueles que não tinham nada a ver com a decisão do Faraó: "Por volta da meia-noite irei ao centro do Egito, e todos os primogênitos da terra do Egito deverão morrer, desde o primogênito do Faraó que se senta ao trono, até o primogênito da serva que está atrás do moinho; e todos primogênitos das bestas." (Êxodo 11:4-5) ["About midnight I will go out into the midst of Egypt, and all the firstborn of in the land of Egypt shall die, from the firstborn of Pharaoh that sitteth upon the throne, even unto the firstborn of the maidservant that is behind the mill; and all the firstborn of beasts." (Exodus 11:4-5)] ["Moisés disse: 'Eis o que diz o Senhor: Pela meia-noite passarei através do Egito, e morrerá todo o primogênito na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que devia assentar-se no seu trono, até o primogênito do escravo que faz girar a mó, assim como todo o primogênito dos animais." (Êxodo 11:4-5)] Similarmente, quando Deus disse a Noé que o mundo estava corrompido e seria destruído, Deus não age simplesmente matando os corruptos, mas matando todas as coisas vivas sobre a terra -- mesmo aqueles animais que não poderia ser corruptos de maneira alguma: "E Deus disse a Noé, O fim de toda carne está vindo perante a mim; para a terra que está repleta com violência por meio deles; e, eis que os destruirei com a terra." (Gênesis 6:13) ["And God said unto Noah, The end of all flesh is come before me; for the earth is filled with violence through them; and, behold, I will destroy them with the earth." (Genesis 6:13)] ["Então Deus disse a Noé: 'Eis chegado o fim de toda a criatura diante de mim, pois eles encheram a terra de violência. Vou exterminá-los juntamente com a terra.'" (Gênesis 6:13)]

Como bispo episcopal John Shelby Spong apontou, "A figura de Deus que começou a emergir da Bíblia não foi para mim nem agradável nem digna de se adorar." (Spong, 1991, pág. 17) Realmente, quem gostaria de adorar um Deus que defende a matança de crianças inocentes, ou que faz sexo com prostitutas? É claro que tal imagem de Deus é compreensível quando se percebe que ela vem de uma tribo de guerreiros nômades que viviam de pilhagens, uma tribo obrigada a lutar num mundo sem lei, acostumada a imolar cruelmente seus inimigos, reais ou imaginários. Essas descrições bíblicas nos contam mais a respeito dos que a descrevem, do que sobre a quem se descreve.

Aqueles que interpretam a Bíblia de maneira literal têm muitas coisas a explicar. A Bíblia está repleta de relatos que são contraditórios e mutuamente exclusivos. Posto que os livros da Bíblia não são o trabalho de uma única pessoa, mas misturas de tradições orais escritas, relatadas por diversos autores e distanciadas por centenas de anos, não surpreende que se possa encontrar erros e contradições. Esse é um problema que somente se defrontam os literalistas que persistem em tomar cada palavra da Bíblia como inequívoca.

Entre os problemas que uma interpretação literalista apresenta:

Em Gênesis 35:19, somos informados que o túmulo de Raquel está em Belém, em Judá: "E Raquel morreu, e foi sepultada no caminho para Efrata, que é Belém." ["And Rachel died, and was buried on the way to Ephrath, which is Bethlehem."] ["Raquel expirou e foi sepultada no caminho de Efrata, hoje Belém."] Porém em I Samuel 10:2 nos contam algo diferente. Agora, é dito que Raquel foi sepultada em outro lugar: "O sepulcro de Raquel está na fronteira de Benjamim em Selsac." ["Rachel's sepulchre on the border of Benjamin at Zelzhah."] ["(...)juntos do túmulo de Raquel, na terra de Benjamim, em Selsac."] Então qual trecho está certo?

Em Gênesis 37:25-28, somos informados que José foi vendido como escravo por seus irmãos para uma caravana madianita que passavam, que por sua vez o vendeu para alguns ismaelitas, que por sua vez o levou para o Egito: "E Judá disse aos seus irmãos, Qual é o lucro se matarmos nosso irmão, e ocultarmos seu sangue? Venham, e deixe-nos vendê-lo para os ismaelistas, e não deixemos que nossas mãos caiam sobre ele, como ele é nosso irmão e nossa carne. E seu irmãos ficaram contentes. Lá então passou os mercadores madianitas; e eles pararam e tiraram José para fora do fosso, e venderam José para os ismaelitas por vinte peças de prata, e eles trouxeram José para o Egito." (Gênesis 37:26-28) ["And Judah said unto his brethren, What profit is it if we slay our brother, and conceal his blood? Come, and let us sell him to the Ishmeelites, and let not our hand be upon him, for he is our brother and our flesh. And his brethren were content. There then passed by Midianites merchantmen; and they drew and lifted up Joseph out of the pit, and sold Joseph to the Ishmeelites for twenty pieces of silver, and they brought Joseph into Egypt." (Genesis 37:26-28)] ["Então Judá disse aos seus irmãos: 'Que nos aproveita matar nosso irmão e ocultar o seu sangue? Vinde e vendamo-lo aos ismaelistas. Não levantemos nossas mãos contra ele, pois afinal, é nosso irmão, nossa carne'. Seus irmãos concordaram. E quando passaram os negociantes madianitas, tiraram José da cisterna e venderam-no por vinte moedas de prata aos ismaelistas, que o levaram para o Egito". (Gênesis 37:26-28)] Mas apenas oito versos a frente nos é dada uma história diferente: "E os madianitas o venderam para o Egito a Putifar, um funcionário do Faraó e capitão da guarda." (Gênesis 37:36) ["And the Midianites sold him into Egypt unto Potiphar, an officer of Pharaoh and captain of the guard." (Genesis 37:36)] ["Os madianitas venderam-no a Putifar, no Egito, eunuco do Faraó e chefe da guarda". (Gênesis 37:36)] Espere um minuto, o que aconteceu com os ismaelitas? Eu pensei que eles levaram José para o Egito e o venderam?

Em I Samuel 16:1-23, somos informados sobre a história de como Davi chegou à corte de Saul (e mais tarde se tornou rei de Israel). De acordo com este relato, Deus diz a Samuel que Davi será o próximo rei. Pouco depois, o rei Saul perguntou por alguém que soubesse tocar harpa, e alguém menciona Davi, o filho de Jessé (ou Isaí). Saul dirigiu-se a ele: "E Davi veio a Saul, e ficou diante dele; e ele o amou muito, e ele tornou-se seu escudeiro. E Saul mandou dizer a Jessé, 'Deixe Davi, imploro-te, ficando diante de mim, por ele ter encontrado benevolência em minha visão'. E veio para passar, quando o espírito maligno de Deus estava sobre Saul, Davi tomava uma harpa, e tocava com sua mão, então Saul era renovado, e o espírito maligno o deixava." (I Samuel 16:21-23) ["And David came to Saul, and stood before him; and he loved him greatly, and he became his armorbearer. And Saul sent to Jesse, saying, 'Let David, I pray thee, stand before me, for he hath found favor in my sight'. And it came to pass, when the evil spirit from God was upon Saul, that David took an harp, and played with his hand, so Saul was refreshed, and the evil spirit departed from him." (I Samuel 16:21-23)] ["Davi chegou à casa do rei e apresentou-se a ele. Saul afeiçoou-se a Davi e fê-lo seu escudeiro. Mandou então dizer a Isaí: 'Peço-te que deixes Davi a meu serviço, porque ele me é simpático'. E sempre que o espírito mau de Deus acometia o rei, Davi tomava a harpa e tocava. Saul acalmava-se, sentia-se aliviado e o espírito mau o deixava." (I Samuel 16:21-23)]

No capítulo seguinte, entretanto, somos informados sobre uma história completamente diferente de como Davi veio a fazer parte da corte de Saul -- talvez a história mais famosa da Bíblia, o conto de Davi e Golias. Agora, somos informados que os três irmãos mais velhos de Davi uniram-se ao exército de Saul para lutar contra os filisteus, e que Davi ficou em casa para cuidar das ovelhas (não se menciona aqui que Davi fora um "escudeiro" do exército de Saul). Quando seu pai lhe pediu para levar alguns grãos e pães para seus irmãos no campo de Saul, Davi chegou justamente a tempo de ouvir o desafio de Golias ao exército israelense, e ele pergunta as pessoas ao seu redor porque alguém simplesmente não matou Golias. Quando Davi é levado na presença de Saul, este, de acordo com esse relato, não dá nenhum sinal de que já conhecesse Davi como aquele que tocou a harpa e que ele "amou muito". Ao invés, Saul diz a ele que não poderia lutar contra Golias porque ele era apenas um menino.

Então Davi foi e matou Golias, fazendo com que o rei Saul perguntasse: "De quem é filho esse jovem?" (I Samuel 17:55). Davi é levado perante Saul, e Saul, aparentemente não tinha nem idéia de quem era Davi, perguntou novamente, "filho de quem és tu, jovem?" Davi respondeu, "Eu sou o filho de Jessé de Belém, teu servo". (I Samuel 17:58) Mas isto não faz o menor sentido. Como Saul não poderia saber quem era Davi, ou de que ele era o filho de Jessé, quando um pouco antes ele tinha se encantado pelo mesmo Davi, o harpista, e suplicou a seu pai Jessé para deixa-lo ficar? Por toda a narrativa de "Davi e Golias", Saul não dá o menor sinal de que já conhecesse Davi como seu escudeiro, embora os versos anteriores deixem claro que foi assim que Saul conheceu Davi. As duas narrativas são mutuamente exclusivas. Ambas não podem estar corretas.

Estas narrativas diferentes se tornam compreensíveis quando se percebe que não são relatos de feitos históricos, mas tradições orais que foram passadas de boca em boca por centenas de anos antes de serem escritas na Bíblia em diferentes épocas e por diferentes pessoas. Em um processo de transmissão assim, erros e omissões são inevitáveis. E apenas se tornam um problema quando alguém tenta encarar estas narrativas como verdade histórica literal.

A exemplo do Antigo Testamento, o Novo Testamento também existiu como uma tradição oral por um longo período de tempo antes de que está tradição fosse escrita. Desse modo não surpreende que o Novo Testamento também esteja repleto de imprecisões e inconsistências.

As inconsistências mais flagrantes (e as mais difíceis para os literalistas explicarem) são encontradas entre os Evangelhos de Mateus e Lucas. Uma vez que a profecia bíblica estabelece que o Cristo seria um descendente do rei Davi, ambos os evangelhos traçam a linhagem de Jesus desde a época de Davi (e anterior). Entretanto, essas genealogias não são consistentes entre si. Em Mateus 1:16, somos informados que "Jacó gerou José, que gerou Jesus." Mas em Lucas 3:23, somos informados sobre algo totalmente diferente: "Heli gerou José, que gerou Jesus." Para tornar as coisas piores, a linhagem dada por Mateus 1:2-26, traça a genealogia de Cristo desde o filho de Davi, Salomão. Mas a genealogia dada em Lucas 3:23-38 faz de Cristo um descendente do filho de Davi, Natã. Ou os ancestrais de Jesus eram recombinantes genéticos, ou a genealogia de alguém está errada. Além disso, Mateus lista um total de 55 gerações desde o patriarca Abraão até Jesus, enquanto Lucas lista apenas 40 gerações entre os dois.

Não se trata aqui de interpretações diferentes ou concessões teológicas; eles são um simples relato do que se supõe ser um fato histórico -- o ancestral de Cristo -- e eles não concordam entre si. O que poderia ser mais simples que nos dizer quem era o avô de Cristo? Ou de qual antigo príncipe de Israel Jesus descende? Ou quantas gerações se passaram entre Cristo e seus ancestrais? A nenhuma outra conclusão se pode chegar exceto de que um destes dois escritores está errado. Ambas linhagens não podem estar corretas. Isto, é claro, não é um problema quando se percebe que nenhum destes escritores jamais conheceu Jesus, e tampouco teve acesso a informação de primeira-mão -- um deles (ou talvez ambos) simplesmente passou informações erradas. Isto é, entretanto, um problema maior para aqueles que querem encarar a Bíblia tanto literalmente infalível como acurada historicamente.

Outras inconsistências podem ser encontradas entre os quatro evangelistas. Uma vez que o evangelho de João foi o último livro a ser escrito, e aparentemente foi escrito de maneira independente dos outros três, não é uma surpresa que possa entrar em contradição com os outros sobre numerosos pontos. Em João 2:13-17, por exemplo, a expulsão dos mercadores do templo por Cristo é colocada no início de sua pregação, logo após ele escolher seus apóstolos. Em todos os outros evangelhos, este incidente é descrito como acontecido um pouco antes da crucificação (Mateus 21:12-13, Marcos 11:15-19, e Lucas 19:45-48). O relato de João coloca o milagre da pescaria como um evento pós-ressurreição: "Era esta já a terceira vez que Jesus se manifestava aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado." (João 21:14) Mas Lucas descreve isto como o incidente que levou Pedro, Tiago e João a unirem-se aos discípulos no início do ministério de Cristo (Lucas 5:4-7). Mateus 26:17, Marcos 14:12 e Lucas 22:7 todos descrevem a Última Ceia como acontecendo na Páscoa Judaica -- mas João 13:1-9 descreve como acontecendo na semana anterior a Páscoa.

Há também inconsistências entre os outros evangelhos. Mateus, por exemplo, é o único dos evangelistas a mencionar a miraculosa estrela sobre Belém (Mateus 2:1-2). Em Marcos 10:35-37, lemos: "Aproximaram-se de Jesus Tiago e João, filhos de Zebedeu, e disseram-lhe: 'Mestre, queremos que nos concedas tudo o que te pedirmos.' -- 'Que quereis que vos faça?' -- 'Concede-nos que nos sentemos na tua glória um à tua direita, e outro à tua esquerda'." Mas em Mateus 20:20-21, há uma versão diferente desta história: "Nisto, aproximou-se a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos e prostrou-se diante de Jesus para lhe fazer uma súplica. Perguntou-lhe ele: 'Que queres?' Ela respondeu: 'Ordena que estes meus dois filhos se sentem no teu reino, um à tua direita e outro à tua esquerda'." Aqui, é a mãe de Tiago e João quem faz este pedido, não os próprios discípulos.

Novamente, nenhuma destas discrepâncias são perturbadoras se lembrarmos que estas eram tradições orais que foram passadas por décadas antes de serem escritas. Mas para os literalistas bíblicos, elas apresentam problemas embaraçosos de consistência.

Ainda mais perturbador para os fundamentalistas literalistas (bem como para os criacionistas) são aquelas passagens da Bíblia que lidam diretamente com a história verificável. A Bíblia é repleta de passagens que simplesmente não são acuradas historicamente. Em Daniel 1:1, lemos: "No terceiro ano do reinado de Joaquim, rei de Judá, Nabucodonosor, rei da Babilônia veio sitiar Jerusalém". A partir dos registros arqueológicos, sabemos que Joaquim iniciou seu reinado no ano 609 a.C., desse modo este cerco bíblico deve ter acontecido em 606 a.C. Mas Nabucodonosor nem mesmo era o rei da Babilônia em 606 a.C., e ele não atacou Jerusalém pela primeira vez antes de 597 a.C. (Asimov, 1968, pág. 599). Outra passagem em Daniel 5:1-2 declarou: "O rei Baltazar (...) mandou trazer os vasos de ouro e prata que seu pai Nabucodonosor tinha arrebatado ao templo de Jerusalém." [ "Belshazzar the King . . . commanded to bring forth the gold and silver vessels which his father Nebuchadnezzer had taken out of the temple which was in Jerusalem."] Baltazar certamente foi uma figura histórica, mas ele não era filho de Nabucodonosor e ele não era o rei -- era um vice-rei do filho de Nabucodonosor, o rei Amel-Murduk. (Asimov, 1968, pág. 605)

O profeta Ezequiel previu que Nabucodonosor tomaria a cidade de Tyrus (Tiro) e a saquearia: "Para isso disse o Senhor teu Deus, eis que, trarei sobre Tiro Nabucodonosor rei da Babilônia . . . e ele colocará máquinas de guerra contra suas muralhas e com seus machados romperá suas torres." (Ezequiel 26:7-9) [ "For thus saith the Lord thy God; Behold, I will bring upon Tyrus Nebuchadnezzer king of Babylon . . . and he shall set engines of war against thy walls, and with his axes he shall break down thy towers." (Ezekiel 26:7-9)] ["Eis o que diz o senhor JAVÉ: Do Norte, mando contra Tiro Nabucodonosor, rei da Babilônia, o rei dos reis, (...) Quebrará teus muros a golpes de aríetes, com seus engenhos demolirá tuas torres." (Ezequiel 26:7-9)] Nabucodonosor, entretanto, nunca conquistou Tiro -- ele foi forçado a abandonar o cerco após quinze anos de luta. (Asimov, 1968, pág. 588) Ezequiel também previu que o Egito seria conquistado e convertido num reino subordinado: "E eu trarei novamente o cativeiro do Egito, e farei que eles retornem a terra de Patros, para a terra de sua morada; e eles deverão formar lá uma base do reino." (Ezequiel 29:14) ["And I will bring again the captivity of Egypt, and will cause them to return into the land of Pathros, into the land of their habitation; and they shall be there a base kingdom". (Ezekiel 29:14)] ["Trarei os egípcios cativos e os restabelecerei na terra de Patros, donde são originários; eles aí constituirão um pequeno reino". (Ezequiel 29:14)]. Isto nunca aconteceu.

Há também muitos incidentes descritos na Bíblia que não têm nenhuma confirmação fora dela -- e alguns destes são as histórias mais famosas da Bíblia. Em Daniel 4:30, somos informados que Nabucodonosor foi afligido por Deus quando não se arrependeu de seu caminho pecaminoso "Ele foi expulso dentre os homens, e pastou ervas como os bois, e seu corpo foi molhado pelo orvalho do céu, até que seus cabelos crescessem como penas de águia, e suas unhas como garras de aves". Tivesse tal aflição repentinamente ocorrido com o rei da Babilônia, o homem mais poderoso da terra na época, alguém certamente teria noticiado, mas não há nenhuma menção de tal incidente em qualquer registro babilônico, sumérico ou qualquer outro registro do Oriente Médio antigo. Similarmente, quando o sol parou por ordem de Deus para que o exército israelense de Josué pudesse terminar de massacrar os amorreus (Josué 10:12-14), como um evento tão extraordinário teria passado despercebido por pessoas por todo o globo, já que não há nenhum registro escrito de um evento assim fora da Bíblia -- nem uma palavra dos astrônomos maias ou dos astrólogos chineses ou de qualquer outro.

Do mesmo modo, não há o menor registro em todos os volumosos registros hieroglíficos egípcios de qualquer das pragas bíblicas (certamente os egípcios teriam noticiados se todos seus primogênitos tivessem morrido -- teria dizimado o país e deixado o Egito um estado estraçalhado e fácil de ser conquistado). Não há nenhum registro fora da Bíblia de um ajudante estrangeiro do Faraó chamado José, e nenhum registro sumérico, babilônico ou assírio da destruição repentina das cidades de Sodoma e Gomorra.

No Novo Testamento, Mateus descreve a "matança dos inocentes", em que Herodes tenta eliminar o menino Jesus matando todo menino com menos de três anos de idade. Não há nenhum registro de um incidente assim em qualquer registro histórico judeu, romano ou grego desse período, e esta matança sequer é mencionada em qualquer um dos outros livros da Bíblia. Faz, entretanto, um notável paralelo com a história bíblica anterior do nascimento de Moisés (onde outro líder tenta eliminar um rival profetizado matando crianças -- e que também não tem nenhuma referência fora da Bíblia). A maioria dos estudiosos bíblicos acreditam que Mateus plagiou a história de Herodes e a baseou no relato de Moisés.

Para os "cientistas" da criação, é claro, o ponto crucial é a credibilidade bíblica conforme se aplica as questões científicas, particularmente aos eventos descritos no Gênesis. Mas aqui, também, a Bíblia demonstra não ser mais sofisticada do que os simples criadores de cabras que a escreveram. Em I Reis 7:23, somos informados sobre um grande vaso que fora construído pelo rei Salomão: "E ele fez também o mar de bronze, que tinha dez côvados de uma borda a outra, perfeitamente redondo, e de altura de cinco côvados; sua circunferência media-se com um fio de trinta côvados". (I Reis 7:23)  A razão do diâmetro de um círculo para sua circunferência é conhecido como "pi", e pi tem um valor numérico de aproximadamente 3,15. Assim, a circunferência de um vaso circular de dez côvados de diâmetro ("de uma borda a outra") teria medido cerca de 31,5 côvados, não 30 como descrito aqui (e se o vaso não fosse circular, a circunferência teria sido ainda maior). Ou as medidas citadas aqui estão incorretas, ou a Bíblia está alegando que o valor de pi é 3,0. Isto, é claro, é uma questão trivial para a maioria de nós -- os escritores não sofisticados da Bíblia, que não tinham nem idéia do que o "pi" até mesmo representava, simplesmente deram as medidas erradas. Mas para os literalistas bíblicos, que vêem a Bíblia como historicamente e cientificamente correta, é inexplicável. Eles preferem não falar sobre o fato de que a Bíblia dá o valor errado para pi.

Em Levítico 11:13-19, como parte das restrições dietéticas impostas aos judeus, vemos outro exemplo da visão simples que os autores bíblicos tinham sobre o mundo natural: "E estas são as quais vós tereis em abominação entre as aves; elas não deverão ser comidas, elas são uma abominação: a águia, e a águia-pescadora, e o abutre, e o milhafre e a sua raça; todo corvo e sua raça; E a coruja, e o falcão da noite, e o cuco, e o falcão e sua raça, e a pequena coruja, e o cormorão, e a grande coruja, e o cisne, e o pelicano e a águia gier, e a cegonha, a garça e sua raça, e o abibe, e o morcego." [ "And these are they which ye shall have in abomination among the fowls; they shall not be eaten, they are an abomination: the eagle, and the ossifrage, and the osprey, and the vulture, and the kite after his kind; every raven after his kind; And the owl, and the night hawk, and the cuckow, and the hawk after his kind, and the little owl, and the cormorant, and the great owl, and the swan, and the pelican, and the gier eagle, and the stork, the heron after her kind, and the lapwing, and the bat."] ["Entre as aves, eis as que tereis em abominação e de cuja carne não comereis, porque é uma abominação: a águia, o falcão e o abutre, o milhafre e toda variedade de falcão, toda espécie de corvo, a avestruz, a andorinha, a gaivota e toda espécie de gavião, o mocho, a coruja e o íbis, o cisne, o pelicano, o abutre e a cegonha, toda variedade de garça, a poupa e o morcego".] Morcegos, é claro, não são aves, mas para os membros simples das tribos hebraicas, qualquer coisa com duas asas que voasse era "uma ave". Mais adiante nestas mesmas leis dietéticas, a Bíblia faz uma surpreendente asserção de que alguns insetos tinha somente quatro patas: "Ainda destes podereis vós comer de todo ser rastejante voador que caminham sobre todas as quatro, as quais têm patas além de seus pés, para saltar com eles sobre a terra; o gafanhoto e sua raça, e o gafanhoto careca e sua raça, e o besouro e sua raça. Porém todos os outros seres rastejantes voadores que têm quatro patas, deverá ser uma abominação para vós". (Levítico 11:21-23) [ "Even of these may ye eat of every flying creeping thing that goes upon all four, which have legs above their feet, to leap withal upon the earth; the locust after his kind, and the bald locust after his kind, and the beetle after his kind, and the grasshopper after his kind. But all other flying creeping things which have four feet, shall be an abomination unto you." (Leviticus 11:21-23)] [Todavia, entre os insetos voláteis que andam sobre quatro pés podereis comer aqueles que, além de seus quatro pés, têm pernas para saltar em cima da terra. Eis, pois, os que podereis comer: toda espécie de gafanhotos, assim como as variedades de solam, de hargol e de hagab. Qualquer outro volátil que tem quatro pés vos será uma abominação". (Levítico 11:21-23)] Gafanhotos e besouros certamente são "seres rastejantes voadores", mas eles nunca tiveram apenas quatro patas.

Outro lugar onde a Bíblia faz uma confusão com a ciência é em Gênesis 30:31-43. Nesta história, somos informados que é dada a Jacó a oportunidade de pegar toda a criação de Labão que fosse manchada ou listrada e que ficasse com eles. Para assegurar uma maior quantidade, somos informados que Jacó sabiamente pegou varetas de salgueiro e as entalhou em um padrão de listras e manchas, "E ele colocou as varetas que havia amontoado perante o rebanho nas calhas nos bebedouros quando o rebanho veio beber, que eles deveriam conceber quando viessem beber. E o rebanho concebeu perante as varetas, e pariram gados riscados, manchados e malhados" (Gênesis 30:38-39). [ "And he set the rods which he had piled before the flocks in the gutters in the watering troughs when the flocks came to drink, that they should conceive when they came to drink. And the flocks conceived before the rods, and brought forth cattle ringstraked, speckled and spotted." (Genesis 30:38-39)] ["Colocou as varas assim preparadas sob os olhos das ovelhas, nas pias e nos bebedouros onde vinham beber. Indo a beber, entravam em calor. E como entrassem no calor do coito diante dessas varas, concebiam cordeiros riscados, manchados e malhados" (Gênesis 30:38-39)]. Em outras palavras, Jacó, por permitir que o rebanho visse varetas machadas durante o ato do acasalamento, foi capaz de induzi-los a produzir crias malhadas, o que é tão impossível quanto produzir bebês humanos listrados por fazer sexo na frente de um barber pole (*5). Hoje, com nosso conhecimento de genética, sabemos que esta história bíblica é um absurdo científico, mas para os antigos pastores hebreus, tal "mágica" era amplamente aceita e não era questionada.

Na verdade, a Bíblia aceita completamente a visão primitiva destas antigas sociedades pastoris. Admitia-se que a terra era chata, com o sol girando ao seu redor e com as estrelas fixas no "firmamento", um teto sólido que cobria a terra. Acima do firmamento estava o Céu. Foi por causa desta visão de mundo que os antigos hebreus não viam nenhum problema com a história de Josué ordenando o sol para que parrasse no céu (o sol, é claro, não se move ao redor da terra). Similarmente, estes versos bíblicos que indicavam que a terra era imóvel e chata não foram questionados até a época de Galileu. Em Daniel 4:7-8, somos informados de uma visão em que Daniel vê "no meio da região, uma árvore de alto porte. Esta árvore cresceu, era vigorosa. O cimo tocava o céu, era avistada até nos confins da terra." Numa esfera como o planeta Terra, é impossível ver "até nos confins da terra" de qualquer lado, não importa quão alto. Mas, uma vez que os escritores da Bíblia acreditavam que o mundo era chato, isto não representava nenhum problema. Similarmente, em Salmos 104:5, o poeta escreve que Deus "assentaste a fundações da terra em bases sólidas que são eternamente inabaláveis". A terra, é claro, definitivamente se move -- e uma esfera não tem nenhuma "fundação". Mas, uma vez que o salmista acreditava que a terra era chata e presa a um ponto fixo, isto também não apresentava problema algum.

Em duas ocasiões, a bíblia deixa completamente o reino da realidade, e assegura que os humanos e os animais conversaram em uma linguagem falada. Em Números 22, encontramos a história de Balaão, que estava montado em uma jumenta quando a estrada foi bloqueada por um anjo que somente a jumenta podia ver. Quando a jumenta se recusou a seguir em frente, Balaão bateu nela, quando então a jumenta virou-se e disse para ele, "Que te fiz eu? Porque me bateste já três vezes?" Balaão, ao invés de descer apavorado da jumenta (o que você faria se seu cachorro de repente se virasse e dissesse para você parar de bater nele por urinar no tapete?), ao invés, ele calmamente explicou que desejava ter uma espada para que pudesse matar a jumenta. Nisso a jumenta falou novamente, e disse, "Acaso não sou eu a tua jumenta, a qual montaste até o dia de hoje? Tenho eu porventura o costume de proceder assim contigo?" (Números 22:28-30). Desnecessário dizer, que jumentos não falam e jamais falaram, e carecem de todas as características físicas necessárias para falar.

O mais famoso de todos os animais falantes é a serpente do Gênesis, que se supõem conversou com a Eva: "A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado. Ela disse à mulher: 'É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?' A mulher respondeu-lhe: 'Podemos comer do fruto dar árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Vós não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais'. --'Oh, não! -- tornou a serpente -- vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis deuses, conhecedores do bem e do mal.'" (Gênesis 3:1-4)

Cobras, é claro, não têm cordas vocais ou outros pré-requisitos físicos para falar. Literalistas bíblicos freqüentemente tentam atenuar este absurdo postulando que a serpente era na verdade o Satanás em pessoa. Isto, entretanto, é minando pelo fato de que Deus amaldiçoou a serpente por tentar Eva, e faz a serpente rastejar sobre seu ventre como punição (uma explicação cristã do porquê as cobras não têm pernas.). Se de fato foi Satanás tentando Eva, e não realmente uma cobra falante, então por que Deus amaldiçoou a pobre inocente serpente por algo que não poderia ter feito? Como Clarence Darrow mostrou durante o julgamento de Scopes, a totalidade da história da "serpente" é impossível de ser aceitar como uma descrição literal de um evento real. Durante seu exame cruzado de William Jennings Bryan com respeito a exatidão literal da Bíblia, Darrow perguntou a  Bryan, "'Andarás de rastos sobre o teu ventre e comerás o pó todos os dias de tua vida.' Você acha que é por isso que a serpente é compelida a se rastejar sobre seu ventre?" Bryan respondeu, "Eu acredito que sim." Darrow perguntou, "Você tem alguma idéia de como a serpente era antes daquela época?" Bryan respondeu, "Não senhor." Darrow perguntou, "Você sabe se ela caminhava sobre sua cauda ou não?" Bryan, para a gargalhada da mutidão, respondeu, "Não senhor, não tenho como saber." (Wills, 1990, p.23) 

Um outro item no Gênesis faz uma leitura literal impossível. De acordo com a escala de tempo criacionista, Deus criou o universo em seis dias, como registrado no Gênesis. Após cada ato da criação, a Bíblia entoa, "Sobreveio a tarde e depois a manhã foi o primeiro dia." Um "dia", é claro, é medido pela revolução da terra ao redor do sol. Mas, de acordo com o Gênesis, o sol não foi criado até o quarto "dia", e o "dia" não era dividido da "noite" até então. (Gênesis 1:14). Ou seja, a palavra "dia" podia ser aplicada ao período de tempo antes disso?

Os criacionistas da terra antiga, é claro, têm postulado que os "dias" mencionados no Gênesis são na verdade indeterminadamente longos períodos de tempo (a palavra hebraica traduzida como "dia" é yom, o que pode significar "um período de tempo" bem como um "dia"). Assumindo que cada "dia" era realmente diversas centenas de milhões de anos, entretanto (como os criacionistas da era-dia fazem) somente suscita outros problemas. De acordo com o relato bíblico, as plantas foram criadas no terceiro "dia", ao passo que o sol não fora criado até o quarto "dia". Se cada "dia" fosse realmente um longo período de milhões de anos, teria sido impossível para as plantas terem existido antes do sol ter sido criado, uma vez que as plantas são dependentes da fotossíntese para a sobrevivência. 

É simplesmente impossível considerar o relato do Gênesis de maneira literal, da mesma maneira que é impossível aceitar o relato do Dilúvio ou qualquer outra parte da Bíblia como infalível. A Bíblia não é um livro de História ou um texto científico -- é um livro espiritual que lida com questões teológicas e espirituais. Tentar forçar a Bíblia numa direção de infalibilidade literal sobre questões históricas e científicas é distorcê-la e rebaixá-la, e tais tentativas inevitavelmente transformam o cristianismo num saco de risos. Da mesma forma que nos lembramos com desdém as tentativas da Inquisição em interromper a disseminação da noção herética de Galileu de que a terra se movia ao redor do sol, assim também os futuros historiadores verão as tentativas dos literalistas bíblicos em interromper o ensino da evolução como uma "heresia".

Publicado em: 20/04/01
Tradução: Gilson C. Santos
Texto original em: http://www.geocities.com/CapeCanaveral/Hangar/2437/literal.htm


N.T.:  

*1: Procurei colocar junto com uma tradução livre o trecho original em inglês da versão do Rei James e o mesmo trecho da Bíblia católica Ave Maria, mas somente em trechos onde a diferença era maior. Conforme este padrão de cores. O trecho da Bíblia Ave Maria serve mais para ilustrar a diferença apontada no segundo parágrafo. Obviamente existem muitas outras versões de Bíblia em português, que o leitor pode usar para comparar com o texto. [voltar]

*2: Sarion: nome fenício do monte Hermon. [voltar]

*3: Alguns estudiosos, como Robin Pane Fox, acreditam com base em várias análises do texto que o evangelho de João possa ter sido escrito por alguém que realmente conviveu com Jesus, talvez o discípulo amado. Apesar do texto ter sido escrito muito tempo após da morte de Cristo, quando seu autor já era um ancião e ter acrescentando trechos que jamais poderia saber mesmo para uma testemunha ocular dos fatos, como o que Jesus pensava a respeito de certas passagens, ou que pessoas em outros lugares conversavam. Também o autor estava bem a vontade para mudar o texto conforme o que já havia acontecido, fazendo assim "cumprir" as escrituras. Mas ainda que o Evangelho Segundo João tenha sido escrito por uma testemunha ocular dos fatos,  Fox também acredita que a maior parte das palavras atribuídas a Jesus, provavelmente jamais foram ditas por ele, como é o caso do Sermão da Montanha ou as famosas "Aquele que não tiver um pecado que atire a primeira pedra". Veja a referência para o livro de Fox na seção de livros. [voltar]

*4: Conforme a nota da Bíblia Ave Maria, Oolá seria uma alusão a cidade de Samaria, e Ooliba a Jerusalém. Um bom exemplo de um texto que se lido de maneira literal diria que Deus teve filhos com prostitutas, mas na verdade o texto é uma metáfora a duas cidades de Israel. [voltar]

*5: poste listrado em espiral (vermelho, azul e branco) à porta das barbearias (símbolo da profissão de barbeiro). [voltar]